Remanescentes

Idioma: Português
Duração: versão de 104 min e 86 min
Legendas: Francês ou Inglês
Ano de produção: 2015
País de produção: França e brasil
Roteiro e Direção de Fotografia: Raphaël Grisey
Produção: Spectre Productions / Raphaël Grisey / Filmes de Quintal
Parcerias: Stiftung Kunsfond, Arbeitsstipendium 2012 / Institut Français, Bourse Hors les murs 2014 / Capacete Entretenimentos / Filmes de Quintal

 

 

Um quilombo, comunidade de descendentes de antigos escravos, está para nascer, ou melhor está a readquirir visibilidade em um vale ameaçado pelos interesses de uma mineradora multinacional no Conceição do Mato Dentro. Na cidade, a especulação imobiliária está a invadir um outro quilombo, o quilombo dos Luízes, enquanto as mulheres da comunidade lutam valentemente para preservar o que resta e lutar pelas terras que os foram roubadas. Remanescentes é um ensaio-documental sobre a questão quilombola e trata de como a política e a sociedade Brasileira lida com a história de seus Afrodescendentes. Raphaël Grisey segue e entrelaça diversas situações ligadas à luta pelo direito à terra e insere o público em uma cosmologia da cultura quilombola no Brasil.




Sobre Remanescentes

No Brasil, é com frequência que a única coisa que as pessoas sabem sobre a história dos quilombos gira ao redor da figura do Zumbi dos Palmares, um antigo escravo que liderou uma luta armada no século 17 contra o poder colonial e fundou a comunidade quilombola, Quilombo dos Palmares. Fora do país, a história da resistência à escravidão no Brasil é frequentemente resumida à imagem folclórica da Capoeira.

Remanescentes mostra a luta dos quilombolas dentro dos contextos da globalização e do  capitalismo presente nas regiões rurais e urbanas de Minas Gerais. Podemos ver no filme que dentro de um contexto rural, os quilombolas se confrontam à mineradoras multinacionais que buscam novas terras para exploração, terras que se encontram dentro do território tradicionalmente quilombola. Enquanto no contexto urbano, os mesmos se confrontam a especulação imobiliária. 
Depois do lançamento do controverso filme de Carlos Diegues, Quilombo, um épico sobre o Quilombo dos Palmares feito em 1980, e ainda alguns documentários que tocaram na questão racial no Brasil, poucos filmes trataram diretamente da questão quilombola. As representações das minorias negras e da cultura Afro-brasileira na mídia, cinema e televisão, são usualmente limitadas à demonstrações musicais e religiosas que pregam a repetição do mito positivista da democracia racial Brasileira.

A obscuração da história de lutas e práticas específicas às comunidades quilombolas podem ser compreendidas como conseqüência do processo contínuo de marginalização e segregação destas populações, processo que perdura há muitos séculos. Sendo assim, os quilombos e suas comunidades são com frequência percebidos no imaginário Brasileiro como uma evocação do passado desconectada dos eventos atuais no Brasil. Porém, essa invisibilidade também serviu como uma insuspeita arma política para os próprios quilombolas nos processos de libertação, existência, sobrevivência, permanência e institucionalizacão em algumas destas comunidades. Se mantendo em segundo plano e desaparecendo do campo de visão do poder colonial, eles puderam perdurar. Este efeito resultou no desenvolvimento de quilombos em territórios remotos e de difícil acesso. Depois da abolição da escravatura, a revolta quilombola foi confinada à um nível local por um longo período. Foi apenas recentemente que ela adquiriu as armas necessárias para convergir e se organizar à nível nacional, ressoando com as atuais correntes do pensamento pós-colonial e integrando-se àquelas que emanam de outras diásporas Africanas.   

As leis e decretos votadas durante a administração de Lula desde 2003 em favor da discriminação positiva, leis que visam os direitos das minorias Afro-brasileiras e das populações indígenas, foram fundamentais para que a luta destas populações pudesse passar para uma escala jurídica e penal mais ampla. Antigas demandas e queixas foram reformuladas e outras re-afirmadas, tais como o reconhecimento dos territórios quilombolas.

O que resta destas estratégias de invisibilidade? Seria ela ainda pertinente no atual processo de representação política? Como é re-definida a autonomia e auto-representação destas comunidades neste contexto? É deste dilema, deste paradoxo, que Remanescentes busca se aproximar. O filme evoca as comunidades quilombolas no presente, enquanto busca sensibilizar os espectadores para a amplitude física, temporal e espacial do movimento dentro de sua globalidade. Ele busca evocar o que podemos chamar de uma metafísica quilombola, o que poderia, em primeira instância, ser uma metafísica da libertação. Esta é obviamente essencial para as histórias das lutas contra a escravatura, mas também defende e circula diferenciados sistemas de valores, relações ao mundo e organizações sociais.

Finalmente, Remanescentes evoca a complexidade das lutas internas (geracionais, comunitárias ou por identidade) assim como externas (territoriais), a diversidade de atores e pontos de vista envolvidos (quilombolas, antropólogos, ONGs, o Estado, a Justiça), variações de pensamentos e a herança quilombola na roça e na cidade.

O projeto que resultou em Remanescentes, ambos, o filme e a instalação, são parte do processo artístico e documentário de Raphaël Grisey, um trabalho que se concentra no lugar das imagens na história pós-colonial da diáspora Africana (cf. Cooperative) e suas pesquisas no Brasil nos últimos anos (cf. Minhocão, A Mãe, Amor e Progresso).

 

[PDF em portugues]

[Taking Part in Festivities of one Hundred Years Ago by Miriam Aprigio
Dear Miriam by Raphaël Grisey]

[filmed materials]

[stills]